Guerra & economia
18 de março de 2003Ao dar um ultimato a Saddam Hussein, o presidente norte-americano George W. Bush acabou com a incerteza reinante nos mercados de capitais, que partem do princípio de uma ação militar de curta duração. Cínico resultado: os índices das bolsas subiram, o preço do petróleo caiu e o dólar valorizou-se em relação ao euro.
O DAX, índice das principais ações alemãs, teve um considerável aumento na parte da manhã, depois de ter atingido na segunda-feira (17/03) um novo recorde de baixa nos últimos sete anos. Nesta terça-feira (18/03), o barril de petróleo da OPEP caiu para menos de 30 dólares (29,80) pela primeira vez nos últimos meses. O petróleo do Mar do Norte (Brent) foi negociado a US$ 27,20 por barril, 2,28 dólares a menos do que na véspera. O euro foi negociado a 1,06 dólar, depois que o Banco Central Europeu fixou sua taxa de referência em US$ 1,0586 (US$ 1,0801 na véspera).
Guerra custará 1% do crescimento
Com a guerra que já parece inevitável, não haverá também como evitar um agravamento da crise econômica. Ao apresentar o balanço da BASF em 2002, em Ludwigshafen, seu presidente, Jürgen Strube, disse que a guerra reforçará a estagnação que já se fez no notar neste primeiro trimestre, podendo representar 1% a menos de crescimento à economia mundial. Strube espera um aumento temporário do preço do petróleo para mais de 35 dólares por barril. No entanto, não acredita numa desestabilização de todo o Oriente Médio, com base na promessa da OPEP de compensar a possível falta do petróleo iraquiano com aumento da extração em outros países membros. Em 2003, o preço médio do barril deverá oscilar entre 25 e 28 dólares, na estimativa da indústria química alemã.
O presidente da Confederação dos Bancos Alemães, Rolf Breuer, anunciou ontem sua previsão da taxa de crescimento do país: no máximo 0,5% ou 0,75%, bem menos otimista do que Berlim. O governo alemão mantém sua previsão de 1% de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) este ano. Ainda seria muito cedo para avaliar os efeitos de curto e médio prazo de uma guerra, disse o ministro alemão da Economia, Wolfgang Clement, em Munique, após um encontro com líderes empresariais.
Previsões inseguras e conseqüências indiretas
O ministro admitiu, contudo, que a crise do Iraque já está influenciando a economia mundial e agora tornará todas as previsões "extremamente inseguras". As reformas anunciadas pelo chanceler federal Gerhard Schröder não serão suficientes para revigorar a economia, frisou Dieter Hundt, presidente de uma das organizações que representam o empresariado alemão, advertindo para o risco de uma recessão na Alemanha. Clement defendeu o pacote de reformas econômicas e do sistema social, dizendo que o fato de não se poder contar com impulsos da economia mundial seria mais uma razão para implementá-lo o quanto antes.
A Alemanha, que não vai participar da guerra, provavelmente ajudaria a socorrer os refugiados e participaria da reconstrução do Iraque, cujos custos o jornal Tageszeitung avalia em 600 bilhões de dólares. Mas bem pior para o país seriam as conseqüências indiretas da guerra, segundo o jornal, como o medo do futuro, que tolhe o consumo e um euro forte, que prejudica as exportações. Também haveria que contar com custos extras para reforço de medidas de segurança, caso a organização terrorista Al Qaeda volte à carga na tentativa de vingar o Iraque. A ferrenha oposição da Alemanha à guerra não é garantia suficiente para livrá-la de possíveis atentados. Convém não esquecer que boa parte dos atentados de 11 de setembro foi planejada a partir de células islâmicas em Hamburgo.
Três cenários de guerra
O Dr. Friedemann Müller, do Instituto Alemão de Política Internacional e Segurança, onde se especializou em política energética, considera o cenário mais provável uma guerra de curta duração – no máximo um mês – e limitada regionalmente, com o que as conseqüências não seriam graves, permanecendo, até certo ponto, previsíveis. Nesse caso poderia haver até impulsos positivos para a conjuntura e o fim das contínuas quedas nas bolsas nos últimos anos. O fim da incerteza criaria um clima mais propício a investimentos, expôs à Manager Magazin da Alemanha.
Menos provável é o segundo cenário de uma guerra igualmente rápida, mas com graves conseqüências econômicas, caso o Iraque consiga prejudicar consideravelmente as exportações de petróleo de um país como, por exemplo, a Arábia Saudita, através de um ataque a seu terminal de escoamento da produção de petróleo. 40% do petróleo negociado mundialmente é proveniente da região do Golfo. Neste cenário, 8% da produção seriam afetados, quantia que nenhum país conseguiria suprir rapidamente através do aumento da sua extração.
No pior dos casos
O terceiro modelo está mais perto de um pesadelo: uma guerra de longa duração e que se estenda a outros países, com ataques terroristas semelhantes aos de 11 de setembro, desestabilização interna da Arábia Saudita por pressão da população ou emprego de armas químicas e biológicas no Iraque, com altas perdas para as Forças Armadas norte-americanas, na visão de Müller.
Além da repentina falta de petróleo no segundo cenário, o efeito psicológico agravaria as conseqüências econômicas. Ele poderia levar à queda dos investimentos e do consumo, potencializando os efeitos da falta de energia (petróleo e derivados). Isto seria superado de longe com o worst case. Neste caso, faltaria ao mundo bem mais do que 20% do petróleo exportado pela região do Golfo. Se a Arábia Saudita for afetada por atentados, os americanos não estariam em condições de controlar a situação nesse país, paralelamente à ocupação do Iraque.
Se as forças islâmicas conservadoras que ainda detém o poder no Irã, apesar da recente abertura, resolverem aproveitar o momento para pressionar os Estados Unidos através do petróleo, o prejuízo seria gigantesco. Basta pensar no Japão, que importa 78% de seu petróleo dos países do Golfo. Com a economia japonesa paralisada, os efeitos se fariam sentir necessariamente na Europa e nas Américas.